
Tim Burton pega no musical e esventra o género com elegância q.b., numa história de amor e sangue. O realizador explica porquê.
De todos os mestres americanos que, desde muito jovens, habitam confortavelmente a luz do cinema, Tim Burton talvez seja o que apresenta mais coerência. Não vagueia entre géneros. Faz o que sempre admirou como se tivesse entregue a alma ao encantamento negro que, desde miúdo, lhe toldou o coração. Treinado pela Disney até ao momento em que foi despedido porque os animaizinhos que ele desenhava, em vez de redondinhos e fofos, se pareciam mais com aquelas carcaças resequidas, no alcatrão da auto-estrada, o jovem Timothy Burton perseguiu a sua visão tétrica até conquistar os relutantes. Reanimou a animação, baptizou o Batman com um espírito realista, lutando sempre com a Warner Bros no sentido de dar ao herói contornos reais, antimusculados. Por onde quer que fosse criou tempestades, perturbando o universo cor-de-rosa do entretenimento tradicional. Hoje, num momento em que refaz o clássico "Alice no País das Maravilhas" e como se tivesse de provar, mais uma vez, que é capaz de compatibilizar o negrume das catacumbas existenciais e a felicidade risonha do sucesso de massas, pega no género musical e esventra-o com a elegância do costume. O filme chama-se Sneeney Todd. Defenitivamente não Sweetie Todd.
in ACTUAL (revista do Expresso)
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